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Este artigo é uma atualização e adaptação de um trecho do livro “Empreendedorismo na Base da Pirâmide” (Ed. Alta Books - 2014), que tive a alegria e honra de escrever com o amigo e irmão de sonhos, Fernando Dolabela, autor do “Segredo de Luiza”, referência mundial em empreendedorismo.

Veja o vídeo do TED - Frans de Wall (quem estiver com pressa veja a partir de 12:30´)

  As evidências:

 1. Desde 2015 o 1% dos mais ricos possuem mais riqueza que todo o resto do planeta;

2. Em 2016, 32 pessoas detinham riqueza equivalente a 50% da população global;

3. Em 2017, um ano depois, 8 pessoas detém o equivalente a 50% da população global (3.6 bilhões de pessoas);

4. Até 2037, 500 indivíduos passarão para seus herdeiros mais de U$2.1 trilhões. É mais do que o PIB da Índia, pais com 1.2 bilhão de pessoas;

5. A renda dos 10% mais pobres aumentou U$65 entre 1988 e 2011. A renda do 1% mais rico aumentou U$11.8mil. 782 x mais;

6. Um executivo de uma empresa do índice FTSE-100 ganha em 1 ano o mesmo que 10.000 bangladeshis de indústrias têxteis no pais;

7. Nos EUA, nos últimos 30 anos, a renda dos 50% mais pobres não mudou. A renda dos 1% mais ricos aumentou 300%;

8. No Vietnã, o homem mais rico do pais ganha em 1 dia o que o homem trabalhador mais pobre ganha em 10 anos;

9. Os top 1.810 bilionários de 2016, possuem US$ 6,5 trilhões, equivalente a riqueza detida pelos 70% mais pobres da humanidade.

No Brasil, 6 pessoas detém o equivalente a 50% da população brasileira (100 milhões de brasileiros).

 

Cresci em uma família de classe média alta, vivendo em uma bela casa colada a uma comunidade carente, respeitando a topologia do contraste típico do Rio de Janeiro. Enquanto a maioria das crianças conhecia a pobreza à distância e através dos jornais da TV, ela se mostrava para mim, desde cedo, com todos os seus cheiros, trajes, mistura de raças, diferenças de brinquedos e ausência dos mínimos confortos que eu usufruía em minha casa. A educação das crianças pobres foi diferente da minha, entretanto, pelo fato dos meus pais serem médicos e atenderem à comunidade, convivemos nos jogos de rua, nas peladas, ao soltar pipas juntos e podia perceber que igual a mim, as crianças pobres exibiam agilidade e perspicácia insuperáveis. Diferente de mim, há nelas uma exuberante fonte de energia que não era convertida em saber ler, contar, escrever. Há um potencial nos meninos humildes que não é levado em conta pelo mundo formal da escola, das aparências, da roupa de marca, da superficialidade com que se camuflam as sociedades e seus representantes políticos.

No fundo, todos intuímos, mesmo quando crianças, que se os vizinhos pobres tiverem uma oportunidade eles saberiam transformar essa energia desperdiçada em melhor qualidade de vida. Se para alguns ainda não é permitido decifrar a origem das diferenças gritantes, os corações as sentem e as mentes as arquivam no canto onde ficam as perguntas que esperam por respostas. Como que embutidas em seu ser, inseridas no conjunto de suas emoções, preocupações e buscas intelectuais, aquelas perguntas estarão presentes em todos os momentos da sua vida. Em uns mais dormentes, em outros ecoando como gritos da alma. Para aqueles que tiverem sorte e estiverem abertos a acolhê-la, persistentemente, outra parte do seu ser exigirá respostas.

As perguntas centrais são: o que faz com que pessoas mesmo vivendo em um mesmo sistema, na mesma comunidade, vizinhas de corpos e de casas, sejam algumas tão pobres e outras, uma minoria, tenham acesso a tudo que o dinheiro permite? Por que as diferenças de berço não são mitigadas por políticas públicas consistentes, por estratégias corporativas e empresariais, por oportunidades distribuídas mais democraticamente? Como impulsionar e aproveitar a energia, a criatividade e o talento de pessoas discriminadas pela pobreza? Como evitar que elas sejam vitimadas inexoravelmente pelo berço pobre? Como, apesar da origem desfavorável, as pessoas podem ter oportunidades reais de se desenvolverem? O que fazer para diminuir as diferenças de conhecimento, renda e poder? Em que momento e porque acreditamos que a desigualdade e a concentração da riqueza são fenômenos naturais, como se fossem dados e não criados? Como nos tornamos insensíveis ao outro nas escolhas e ações que fazemos a cada instante? Durante a minha vida a busca das respostas a essas perguntas tem definido os meus sonhos e as ações. Entendi desde cedo a frase "o subdesenvolvimento não se improvisa. É fruto de séculos"[2]. E também a obviedade: "O Brasil não é um país subdesenvolvido. É um país injusto"[3].

Fui abençoado e recebi um legado pelo simples fato de nascer na família que nasci e crescer em um ambiente que valorizava a consciência crítica, a capacidade de perceber o que é subliminar, de se criar uma visão sistêmica, não reducionista, integradora. Tudo isso foi sendo fermentando e agregado à minha própria visão. Na interação com as comunidades carentes, aprendi que o óbvio mostra que uma pessoa que nasce em uma comunidade como a do Alemão, no Rio de Janeiro, tem baixíssima probabilidade de desenvolver as suas plenas potencialidades. Mas ao vivenciar a experiência no campo, também entendi que a sensibilidade e o intelecto nos dão mais que o óbvio e aprendemos a perceber que a pobreza global não é eliminada por haver escassez de meios e recursos, mas por falta de vontade.

Como empreendedor, acredito que empreender está inextricavelmente conectado à história de vida de cada um, e é definido pela sua visão de mundo e pelo seu desejo de transformá-lo, oferecendo valor positivo para a coletividade. A natureza e a integridade do empreendimento refletem a forma como o empreendedor percebe as pessoas, a natureza e a ética.

A intensidade do ato de empreender é consequência da relação que a pessoa estabelece consigo mesma. É necessário possuir elevada autoestima associada à crença de que seus atos podem gerar transformações. Empreender é uma forma de ser. Para o empreendedor não há separação entre a vida e o trabalho. Agimos sempre, mesmo inconscientemente, seguindo uma crença, uma ideia que antecede o ato e modela a ação. Portanto o empreendedor segue uma concepção que já ocupa a sua mente. Ele irá tratar a natureza, os seus colaboradores, os seus clientes de acordo com a visão de mundo previamente construída, que em última análise, influencia a escolha entre a criação de fábrica de cigarros ou de uma escola. A ética e o compromisso social irão definir o valor que o seu produto irá oferecer e também a sua confiabilidade. O empreendedor é fruto inextrincável do seu Ser.

Como empreendedor, me alinho a todos os empreendedores do mundo dedicados a demonstrar que podemos, como indivíduos, famílias e sociedade, juntos, agir para que todas as crianças do mundo tenham o direito a um futuro e não apenas a fatalidade de um destino. Para que o acesso a dignidade e ao desenvolvimento não seja consequência da família que nascemos, mas o resultado da sociedade em que vivemos e cocriamos.

Sozinhos, não somos nada! Juntos, somos mais.

O que nos une? O que cada um de nós pode fazer para fortalecer esse novo paradigma?

 

 



[1] Em referência ao relatório sobre a desigualdade global “Uma economia para os 99%” (www.oxfam.org janeiro/2017). Mas vou além da economia e proponho um “Mundo” pois a dimensão econômica ainda é um recorte do Ser Humano. A renda e a riqueza são um dos aspectos da desigualdade, mas não o todo. Além da economia, há a desigualdade de poder, de esperança, de felicidade, de potencialidades e tantas outras que compõem esse mosaico que é o Ser Humano.  

[2] Geralmente atribuída a Nelson Rodrigues

[3] Geralmente atribuída a FHC

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Marco Gorini

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