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É cada vez mais frequente ONGs explorarem o campo dos negócios sociais como alternativa para o financiamento de seus projetos. Há diferentes origens para esse movimento, não necessariamente simples de ser realizado.

Doadores tradicionais – geralmente grandes empresários ou fundações privadas – vêm se tornando cada vez mais exigentes com relação aos modelos de gestão adotados pelas ONGs e às evidências do efetivo impacto social produzido por seus projetos sociais. Com isso, muitas organizações se sentem pressionadas a dialogar com seus apoiadores em um registro mais orientado à gramática do mundo privado, além de desenvolver fontes alternativas de recursos.

Pensando nisso, algumas ONGs têm procurado – e conseguido – desenvolver estratégias de cobrança para os serviços prestados, tanto os diretamente associados ao objetivo social da organização, como atividades paralelas que geram recursos suplementares. Em certos casos, tais iniciativas podem derivar modelos de negócio mais estruturados – contribuindo em tese para a manutenção da sua proposta de impacto e para a sustentabilidade dessas organizações no longo prazo.

Ocorre que as lógicas do terceiro setor e do mundo dos negócios são distintas, tornando essa composição mais complexa. Para ficarem de pé, negócios exigem grande disciplina na gestão de recursos (financeiros, humanos e materiais) invariavelmente escassos. Por sua vez, muitas ONGs, habituadas ao soft money das doações, manifestam menor inclinação ou condições técnicas mais limitadas para se submeterem a essa disciplina. E as soluções híbridas (parte ONG, parte negócio) também podem ser problemáticas, colocando em questão temas espinhosos, como os valores da organização, a estrutura de incentivos voltada para os colaboradores e o relacionamento da instituição com parceiros e apoiadores de muitos anos.

Nós, da Din4mo, temos dialogado frequentemente com atores privados e do terceiro setor sobre esse tipo de questão. Acreditamos ser legítimo tanto que ONGs busquem fontes alternativas de receita fora do escopo tradicional, como que negócios sociais busquem apoio na forma de doações ao longo do seu desenvolvimento. Mas recomendamos separar muito bem as coisas.

Entendemos que negócios devam ser pensados como negócios, com todo rigor e disciplina que esse campo exige. Quando isso não ocorre, o modelo de rentabilização do projeto fica comprometido, não permitindo que a organização preserve os recursos investidos na proposta e, mais à frente, venha a captar recursos adicionais para seu desenvolvimento de longo prazo. E se o projeto é para ser construído a fundo perdido, o melhor é assumir essa premissa com toda a clareza desde o início.

Em suma, se negócios com impacto social se percebem como ONGs, porque desenvolvê-los como negócios? E se, por outro lado, trata-se mesmo de uma empresa, não de uma ONG, não há como fugir da lógica privada – cujas virtudes espartanas é que permitirão o projeto crescer e se desenvolver.

Neste campo, é mau negócio ficar em cima do muro.

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