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O campo da chamada edutech tem se expandido de forma significativa mundo a fora. A promessa é grande: revolucionar a forma como as escolas funcionam e as crianças aprendem.

As narrativas originárias desse campo falam do desejo de transformar uma escola conservadora, chata e ineficiente em algo divertido e inovador. O recurso à tecnologia seria capaz de transformar essa realidade, trazendo a crianças e jovens conteúdos interativos e atraentes. Parece lindo, mas quem vai comprar?

Um dos principais problemas é que os compradores de tecnologia educacional são os mesmos “chatos e atrasados” – redes de ensino, escolas e professores – que muitos produtores de tecnologia criticam. Afinal, vender é uma arte que exige empatia e compreensão do modo de pensar do seu cliente. Não funciona muito bem quando achamos que nossos compradores são “estúpidos”.

E, para complicar, mais de 80% do ensino básico é público. Realizar vendas para esse setor pode envolver grande complexidade. Além dos recursos escassos, é preciso passar por longos processos licitatórios e, muitas vezes, convencer a organização em questão da viabilidade do projeto (dado o baixo nível de tecnologia disponível na escola pública), mostrando ainda o impacto educacional da solução desenvolvida.

Várias startups com que interagi nos últimos anos – e que sonhavam transformar o ensino público – aprenderam de modo duro que esse é um mercado complexo e ingrato, especialmente em tempos de crise. E o segmento privado não é necessariamente mais simples. Os grandes atores são os sistemas de ensino: com seu material didático, formação de professores e apoio à gestão, eles capturam parte significativa das compras de serviços realizadas pelas escolas particulares. Em alguns casos, a solução pode ser associar-se a eles, embora isso também possa significar o beijo da morte para projetos muito promissores.

Nesse cenário difícil, tenho gostado cada vez mais de soluções que definem e focam muito bem um único público (professor, diretor, pais ou alunos). Não ambicionam transformar a educação como um todo, mas fortalecer um grupo específico que – ao se beneficiar de uma dada solução – passa a disseminá-la e promovê-la no contexto das redes de relacionamento.

Um exemplo muito interessante é o Teachers Pay Teachers (www.teacherspayteachers.com), uma plataforma onde professores disponibilizam planos de aula e outros materiais didáticos e recebem por isso. A plataforma não julga o que é bom ou ruim. A própria comunidade escolhe materiais didáticos que consideram mais relevantes. Além de disseminar boas práticas, a ferramenta contribui para proporcionar uma remuneração extra aos profissionais de ensino. No ano passado, nos Estados Unidos, alguns professores receberam um adicional de até 100 mil dólares com esse recurso.

Enfim, o caminho é difícil, mas existem alternativas. O mais importante é compreender que, em educação, como em tudo na vida, nunca haverá uma única bala de prata.

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