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O acesso ao capital sempre foi um jogo de cartas marcadas. Em todo o mundo, tem acesso a crédito quem tem garantias. E os que têm garantias são aqueles que já possuem capital ou ativos físicos, seja porque construíram um patrimônio ao longo da vida, seja porque o receberam como herança.

Essa distorção, clássica do capitalismo, é parte do fenômeno que os economistas passaram a denominar de “falha de mercado”. Nesse caso, a meritocracia não acontece. Bons projetos deixam de ser financiados, simplesmente porque o proponente não possui os ativos necessários para viabilizá-lo. É injusto, mas é assim que funciona.

E, no Brasil, o cenário é ainda pior e mais concentrador de renda. Ao invés de atuar para reduzir essa falha de mercado, facilitando e ampliando o acesso a capital para bons projetos, o governo continua despejando recursos subsidiados em grandes empresas capazes de acessar capital de outras formas – por exemplo, via mercado de capitais, debêntures e mercados externos. Já as pequenas empresas, efetivamente as grandes geradoras de emprego, continuam com muito pouco acesso a recursos para investimento.

Nesse quadro árido e triste, o crowdfunding é uma incrível novidade. Quando cinquenta pessoas se reúnem pela internet para apoiar um projeto que consideram justo e relevante, cria-se uma nova lógica extremamente poderosa. O mérito na captação de recursos passa a ser a qualidade do projeto e não o bolso do seu proponente. O empreendedor e o investidor passam a estabelecer relações mais horizontais, baseadas no respeito mútuo e na credibilidade. E o governo não precisa entrar na equação, poupando os escassos recursos públicos para as políticas sociais.

Tudo isso está apenas no início. Consideradas as plataformas de equity  crowdfunding existentes no Brasil, como Broota (www.broota.com.br) e Eqseed (www.eqseed.com.br), menos de 20 projetos foram financiados até agora. Mas algumas das propostas já apoiadas têm importante significado em termos do seu impacto social, como o Programa Vivenda, que recebeu o Prêmio Folha Empreendedor Social (2015).

Todos os que acreditam na proposta do crowdfunding – empreendedores, investidores, plataformas ou apoiadores – têm a importante missão de contribuir para que esse novo ecossistema cresça de modo saudável e sustentável. Para tanto, é preciso investir na transparência e na credibilidade das propostas, evitando reproduzir formas ultrapassadas de relações comerciais em que um lado – qualquer um deles, ou mesmo ambos – busca ‘levar vantagem’ sobre o outro.

Se conseguirmos entender que essa é uma construção coletiva, se formos capazes de fortalecer esse ecossistema – sem deixar o governo ou os crocodilos de sempre atrapalharem – o futuro pode ser brilhante. Faz sentido?

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