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Em colaboração com o Instituto C&A e C&A Foundation, realizamos uma jornada de aprendizagem incrível pela Índia. Foram quase 3.000 km rodados pelo país para aprender, conhecer e imergir nos projetos de desenvolvimento de algodão orgânico e trabalho forçado/infantil na indústria têxtil.

A India é um país especial. Uma cultura que acredita que o visitante é um representante de Deus. O país proporciona uma experiência transformadora e, pessoalmente, volto com muitos questionamentos e diversas dúvidas sobre premissas que tinha/tenho sobre desenvolvimento social, econômico e ambiental.

Ao mesmo tempo, vi diversas oportunidades de como potencializar impacto e escala de empreendimentos. Destaco algumas delas aqui:

  1. Fintechs e potencial de leapfrog financeiro: desde novembro de 2016, o governo indiano iniciou o processo de desmonetização. Isso mesmo, iniciou a retirada de cédulas da economia com objetivo de reduzir a economia informal e mercado negro. Essa é uma das grandes bandeiras do Primeiro-Ministro Modi. Hoje, apenas 14% da economia é considerada formal. O governo acredita que estimulando as transações financeiras através dos bancos e carteiras eletrônicas poderá ter mais controle sobre as movimentações. Isso, combinado com a telefonia móvel estar amplamente difundida pelo país, entre feature-phone e smartphones, a India poderá experimentar um leapfrog importante nos próximos anos. Apesar de 68% da população de 1,3 bilhão de pessoas ser rural, a boa infraestrutura de conectividade está levando uma das empresas locais, a PayTM ser a startup de mais crescimento no país. A bancarização poderá pular as contas em bancos e cartões de crédito, ainda sofrível por lá, e ir direto para carteiras eletrônicas e, eventualmente, Bitcoin.
  2. Água, Água e Água: Com ainda 68% da população rural e os centros urbanos já completamente lotados: Bombaim já possui cerca de 30 milhões, Delhi está com 15 milhões. Bangalore segue o mesmo ritmo. India teme pela urbanização. Grande parte do país tem sofrido com secas e períodos de monções irregulares. A agricultura local depende de irrigação em mais de 70% das áreas. Além disso, o saneamento básico é precário em todo o país. Conversando com pequenos produtores rurais, perguntei qual sua maior dor e o que os impede de serem mais eficientes. Resposta: água. Soluções inovadoras que permitam levar e tratar água a essas comunidades poderá habilitar um amplo desenvolvimento social e econômico, além de ambiental.
  3. Crédito: outro ponto crítico que aparece para ampliar o impacto e escala dos empreendedores rurais é acesso a fontes de financiamento. A india ainda não possui um sistema bancário e financeiro robusto, o que limita a concessão de crédito. Iniciativas que levem esses oportunidades a este público, equilibrando a necessidade de capital de curto-prazo com a construções de ativos de longo prazo, poderão alavancar empreendimentos a um outro patamar.
  4. Formação: não é incomum encontrar comunidades no interior que vivem em condições de décadas ou séculos atrás. A necessidade de formação e instrumentalização destes empreendedores é latente. Ao visitar uma vila com 1000 produtores de algodão orgânico, fica evidente o quanto a formação os levou a um nível de referência. Nos mostraram, por exemplo, como produzir biopesticida, apontando à ASA, organização social apoiada pela C&A Foundation, como a responsável pelo ensinamento.
  5. Serviços básicos: de horas em horas, Delhi vivencia cortes de energia. A megalópole denuncia as estrias do crescimento. Saneamento é inexistente em grande parte das comunidades urbanas. A coleta de resíduo é limitada e mal consegue suprir o centro da cidade. O sistema de saúde ruiu, tamanha demanda. Medicinas alternativas como ayurvédica despontam como soluções. A produção de alimento, através de agricultura de subsistência, abastece as zonas rurais. Nos centros urbanos, começam a depender da industrialização. Transporte é precário. O país é um canteiro de obras inacabadas. Não é incomum pontes que ligam o nada com o lugar nenhum. Paradas. O governo não dará conta. A abertura para a iniciativa privada parece crítica. O governo do PM Modi parece estar pavimentando esse caminho.

Um país fascinante e com desafios em escala inimaginável. Não é atoa que a India é um celeiro de negócios de impacto, tamanha oportunidade. Empreendimentos como Embrace GlobalNarayana HealthAravind Eye Care são alguns dos modelos de negócios que criaram mercados em necessidades existentes (Prahalad e Hart, 2004). Para quem está investindo tempo, dinheiro e esforços no Brasil para transformar vidas e desenvolver comunidades, a India é uma baita referencia.

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