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“Sozinho, o empreendedor está em péssima companhia”

Fernando Dolabela

 

As evidências:

1. Desde 2015 o 1% dos mais ricos possuem mais riqueza que todo o resto do planeta;

2. Em 2016, 32 pessoas detinham riqueza equivalente a 50% da população global;

3. Em 2017, um ano depois, 8 pessoas detém o equivalente a 50% da população global (3.6 bilhões de pessoas);

4. Até 2037, 500 indivíduos passarão para seus herdeiros mais de U$2.1 trilhões. É mais do que o PIB da Índia, pais com 1.2 bilhão de pessoas;

5. A renda dos 10% mais pobres aumentou U$65 entre 1988 e 2011. A renda do 1% mais rico aumentou U$11.8mil. 782 x mais;

6. Um executivo de uma empresa do índice FTSE-100 ganha em 1 ano o mesmo que 10.000 bangladeshis de indústrias têxteis no pais;

7. Nos EUA, nos últimos 30 anos, a renda dos 50% mais pobres não mudou. A renda dos 1% mais ricos aumentou 300%;

8. No Vietnã, o homem mais rico do pais ganha em 1 dia o que o homem trabalhador mais pobre ganha em 10 anos.

9. Em 2015/2016 as 10 maiores empresas do mundo tiveram receita superior à de 180 países juntos.

10. Os top 1.810 bilionários de 2016, possuem US$ 6,5 trilhões, equivalente a riqueza detida pelos 70% mais pobres da humanidade.

No Brasil, 6 pessoas detém o equivalente a 50% da população brasileira (100 milhões de brasileiros).

 

A ideia de desenvolvimento está muito vinculada a ganhar liberdade. Quer dizer, na medida em que alguém se desenvolve ela alcança maior grau de liberdade, em relação ao entorno, em relação à sua intervenção no mundo, e aprende a realizar escolhas melhores e mais conscientes. O desenvolvimento e o empoderamento do indivíduo é um pressuposto ao desenvolvimento de sua empresa. Empresa e indivíduo formam um só conjunto, indissociável. Ao se desenvolver, o indivíduo desenvolve a sua empresa. E como se ganha graus de liberdade? Percebendo e se apoderando daquilo de melhor que está disponível no seu entorno, principalmente conhecimentos, e fortalecendo o seu autoconhecimento e elevando a sua autoestima.

As empresas, sejam micro ou sejam conglomerados, tem um papel chave no desenvolvimento das comunidades que estão inseridas e podem (devem?), sem perder o foco no seu core business, mas ampliando o olhar para o ecossistema em que se inserem, desenvolver relações mais fortes e ganha-ganha com seus clientes, fornecedores, aliados e a comunidade e, através dessas relações, serem agentes efetivos de impacto positivo no desenvolvimento econômico, social e ambiental, assumindo um papel de liderança como catalizadoras e promotoras da prosperidade e do bem comum. Aparentemente essa afirmação é óbvia. Entretanto as evidências teimam em contrariar a obviedade das afirmações.

Mas se as empresas são o fruto dos indivíduos que a formam, especialmente os que exercem posição de liderança, é justo supor que para que as empresas de fato exerçam esse papel, basta que seus executivos e tomadores de decisão estejam sensíveis, dispostos e atentos à oportunidade (e a necessidade) que se apresenta, e tenham tal intenção e ousadia para colocá-la em prática. Em um mundo integrado, globalizado, com o nível de capital tecnológico, econômico e intelectual como o atual, não há qualquer entrave técnico, de qualquer natureza, para que isso aconteça. Os entraves são culturais, atitudinais, são portanto, do olhar influenciado pelas nossas crenças e do paradigma sob o qual elencamos nossos valores e que por consequência, definem nossas escolhas, nossas ações e omissões. Se estamos falhando nesse papel chave, não estamos falhando como empresas. Estamos falhando como indivíduos e sociedade.

A expressão “responsabilidade social” é um pleonasmo, uma redundância, uma tautologia. Pode uma empresa, seja qual for o seu porte, não ter responsabilidade social? Não existe responsabilidade maior do que com a vida, em todas as suas manifestações. Essa será a versão madura do que o capitalismo pode fazer em países democráticos. Atualmente também falamos de negócios sociais, pois hoje, devido a esse paradigma estar incipiente, ainda é necessário qualificarmos dessa forma. É relevante fazermos conferências para tratar de negócios sociais, de negócios de impacto, de capitalismo consciente. Mas em um mundo mais equitativo, justo e evoluído, deveríamos estar falando só de negócios, que deveriam naturalmente gerar impacto social e ambiental positivos e, obviamente, lucros reais, nos quais todos os impactos foram capturados.

Ninguém promove simpósios, encontros, conferências para afirmar que o lucro deve existir, porque é o óbvio na dinâmica do modelo capitalista. Da mesma forma haverá de chegar o dia em que será desnecessário, por sua escandalosa redundância, promover um simpósio para se discutir sobre negócios inclusivos ou que toda empresa deve ter o impacto social e ambiental positivo como consequência das suas decisões e ações. Essa é a tese e o sonho de todos que conduzem e apoiam este novo paradigma em especifico e a filosofia subjacente ao mesmo em geral, filosofia esta promovida por iniciativas ainda escassas mundialmente, mas crescentes e cuja dimensão e ousadia poderão gerar mudanças na essência do funcionamento capitalista, qual seja, a de promover o próprio desenvolvimento e aumentar o próprio lucro, fortalecendo o desenvolvimento e aumentando os ganhos da clientela e do habitat em que está inserido. Sim, esse princípio, o princípio de que a dinâmica dos mercados são a essência do capitalismo, mas que por trás dessa dinâmica não há uma mão invisível, mas sim seres humanos que tomam decisões e fazem escolhas que geram impacto em seres humanos e nos ecossistemas em que estão inseridos e de que essas escolhas podem (e devem) ampliar sua perspectiva, na construção de um mundo mais digno, sustentável, melhor. A realidade é o espelho das nossas escolhas, portanto, a responsabilidade recai inexoravelmente sobre nós, aceitemos ou não, gostemos ou não.

Mas por que as estratégias vigentes são altamente concentradoras e não se preocupam com a emergência de camadas pobres?  Porque se gera tanta exclusão e desigualdade? Em vários momentos e formas ao longo do dia, as escolhas que fazemos combatem, nutrem ou ignoram essa realidade evidente? Como podemos aprender a fazer melhores escolhas individuais e coletivas? Queremos? O que nos impede?

Essas perguntas alavancadoras podem nos ajudar a encontrar o que precisamos mudar em nós mesmos, para que a estratégia maior de toda organização, seja qual for o seu porte ou setor, seja a obtenção de prosperidade e perenidade através do desenvolvimento da prosperidade dos colaboradores, clientes, fornecedores, aliados e comunidades do seu ecossistema, assim como do planeta. O lucro saudável é uma consequência do trabalho bem feito, jamais o propósito maior que norteia a caminhada. Essa relação ganha-ganha, de geração de valor coletivo, dentro do modelo capitalista, é o caminho escolhido por aqueles empreendedores e intraempreendedores que estão nas fronteiras, na “última milha”, abrindo trilhas e agindo como protagonistas na cocriação de um novo mundo, coerentes com o que sentem em seu coração e alinhados com a realidade chocante que nos cerca, focados em uma nova forma de ser e fazer e redefinindo o que é sucesso.

O que cada um de nós pode fazer para fortalecer esse novo paradigma?

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Din4mo

Marco Gorini

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